deep inside

December 28, 2006

Nós desmoronamos aos poucos. A cada fim de tarde, despedaçamos as frágeis cordas que nos prendem, e nos lançamos. Você acende o seu cigarro e eu aspiro a sua fumaça com força. São os seus olhos. E as minhas mãos, desfazendo-se de tudo. Hesito. Escrevo e depois apago, rabisco promessas na minha cabeça, esquecida que sou. Acordo com preguiça de abrir as cortinas, de sair do escuro, um oceano de silêncio. E você me desenha estrelas num papel fosco. São os meus olhos, escondendo-se de ausências.

Vou embora, jogar-me no mar, pular sete ondas. Pular uns cansaços. Afogar-me no sol e renascer. “Esse ano vai ser o meu ano, e eu ei de ser, terei de ser feliz…”

fly away

December 24, 2006

 

“A vida é assim: peixe vivo, mas que só vive no correr da água. Quem quer prender esse peixe tem que o matar. Só assim o possui em mão. Falo do tempo, falo da água. Os filhos se parecem com água andante, o irrecuperável curso do tempo. Um rio tem data de nascimento? Em que dia exacto nos nascem os filhos?”
(Mia Couto em “O último voo do flamingo”)

As estrelas. Sempre elas. E dessa vez, as suas lágrimas. Poderia fazer um colar com elas e pendurar n’alguma margem de rio. Pois os olhos escondem muito e não se vê quando choram por dentro. E os diamantes guardam seus desamores, como conchas que levam tesouros e o tempo despedindo sonhos. Todos eles. As pétalas dobram e desabrocham novas promessas. Um novo ano. E cada dia é uma chance de se acordar criança mais uma vez. E inventar novas palavras, sentimentos novos e uma poesia outra. Estou a exalar visões.

like a rolling stone

December 18, 2006

Quase 22. Quase a vida adulta, quase sonhos que se realizam. Mas o copo ainda é sempre metade vazio. E a minha garganta está sempre seca. Deixei de querer sempre o último gole, mas ainda não cresci. O ano ainda não acabou e eu já rasguei o calendário, risquei as datas como se elas não tivessem existido. Num impulso, fechei a porta com força antes que tudo começasse de novo. Fugi.

É noite. As luzes brilham de alto a baixo, das janelas, das estrelas. E antes que a noite apague tudo, escolho promessas no meio das constelações. Escrevo meus pedidos em papéis amassados e os tranco na gaveta, entre planos e cartas antigas. Aguardo, por enquanto, sem direção. O disco acaba e silencia. E ainda é dezembro…