diamonds on the inside
January 29, 2007
Não preciso de música pra dançar.
Mapa pra chegar.
Espelho pra me ver.
Os diamantes estão em todo redor. Ao meu lado. E aqui dentro.
Brilhando.
E sorrindo.
[22]
thin air
January 21, 2007
Acordo em nuvens brancas. Chove e eu me protejo em lençóis de algodão fino. Tem um pouco de paz amanhecendo, como se fossem pássaros nascendo, mas sem asas. Eu finjo que não ouço a sua voz. Mas você respira e me sufoca.
Engulo um café amargo, que seca a língua e desperta o corpo. Cotidiano. Procuro seus olhos, mas eles se escondem atrás das notícias do dia. Olhares invisíveis. Insisto e te busco no reflexo do copo. Na luz que brinca na janela, nas flores que não pousam. E quando te persigo, é o pôr-do-sol que alcanço, é a calma que não chega.
Me segura ou eu adormeço.
clarity
January 15, 2007
Você tatua símbolos desconhecidos na pele, eu tenho medo do tato. Do que fica marcado. Você explode e eu recolho os cacos. Depois tento juntá-los em vão, deixando frestas e pequenas ausências. Você bagunça as linhas da minha mão. Eu costuro com doces versos que você finge entender. São apenas cores.
Afinal é tudo um jogo de silêncios e parágrafos inteiros, escritos com armas. Mas você sorri e eu viro entardecer. Você olha nos olhos, eu desabo. E tudo derrete ao nosso redor.
in the sky with diamonds
January 10, 2007
“Dona Catarina vende flores onde trabalho. Passeia pelos corredores com um carrinho repleto de gérberas, flores do campo e orquídeas, todas embrulhadas em papéis de seda coloridos e fitas de laços enormes. Uma senhora de mais de 70 anos, filha de camponeses japoneses que abandonaram sua sagrada terra em um navio sujo e colérico. Gerou uma única vida. Já um velho, alcoólatra e solitário. Que dona Cat não me ouça, mas apenas um parasita que odeia plantas. E eu nunca confiei em pessoas que não gostam de plantas.
Semana passada, descobri por intermédio do jornal interno da empresa que seu nome verdadeiro é Tioko. Foi uma surpresa para todos. Dona Tioko circula há 30 anos por aqueles corredores e até então, nunca chegaram a perguntar o seu nome. Era apenas dona Catarina, a velhinha das flores. Aquela que unira tantos casais com suas rosas anônimas.
Vi um rapaz cumprimentando dona Tioko, e seu sorriso tímido, tão pouco utilizado abriu-se humildemente. Admirando a cena, senti um aperto forte no peito, como se aquela senhora fosse o fim de todas aquelas coisas que não vivi, e das quais sentirei saudade. Coisas cujos nomes desconheço, mas que, mesmo assim, me são tão familiares…”
Escrito em 10 de agosto de 2004
Dona Catarina faleceu no ano novo. No meio de promessas e desejos de nova vida. Em meio aos fogos de artifício que brilhavam e explodiam no ar. Logo ela, que caminhava como o céu, que tinha “sotaque de nuvens”. Que era um par de olhos calados.
Foi no meio de um sonho, lentamente, com os girassóis vigiando seus suspiros. Com os lírios tentando conter seus passos. Fugiram silenciosos, cansados. E partiram, levando pétalas, amores-imperfeitos e o aroma de todo um campo. Em seu novo jardim, talvez as flores se perfumem somente para ela…
given to fly
January 4, 2007
Céu de brigadeiro, cheiro de infância. Poças de chuva pra pular no chão. Caminho enquanto ele sussurra: “If I could be just who you wanted all the time”. Eu apenas sonho, querendo ser o mundo inteiro, o tempo todo. Mas hoje não. Hoje eu fecho os ouvidos e aspiro a rua. O sol jogou um sorriso no meu rosto, cegou meu cansaço e enfim, acertou meu compasso. Respiro aliviada. Ainda há ar, há tempo. Ainda existe uma noite inteira pra navegar.
São as ondas, as borboletas e a sua poesia. A vida é fácil assim…