zoo
September 13, 2008
Caras de cavalo me olham não percebendo. Carbonizadas em camadas lentas de fuligem e cansaço. Caras pálidas, amarelas, ocas, caiadas. Como carcomidas pela desgraça. Olhos de peixe, de sapo, de presa que não pisca. Rastejam em chãos de pedra e paralelepípedo. Rastejam dos trens, dos ônibus, das calçadas, empurram-se, chocam-se. Não se chocam. Chacoalho, sangro, não se encostam. Castram sonhos diariamente, calam-se. Quero abraçá-las. Caras, corpos, calos. Qualquer coisa que caiba em meu colo. Quero colá-las a árvores, sóis, estrelas. Ser natureza. Uma vida outra.
Sonhos…
the name of the rose
January 12, 2008
Eu tinha medo porque ela não tinha. E olhava reto, porque ela me espelhava. Sentia pena de suas vestes rotas, masculinas, abandonadas sobre sua pele. O seu rosto não trazia mais razão. O seu corpo perdera o pudor.
Foi num dia de muito sol que ela apareceu naquela praça, já apinhada de outros moradores. Somara-se à velha sem dentes e muitas malas, ao elegante louco que passava o dia lendo pesados livros, a outra meia dúzia de mendigos envolventos em mal cheirosos cobertores e aos tantos pombos que ali iam e vinham.
Eu não conseguia imaginar em um nome que lhe desse forma, ou um sobrenome que a explicasse. Inquietava-me seus olhares brancos, os pulsos que levava colados um ao outro, as roupas que mudavam diariamente, mas sempre tão largas, superlativas. Não cantava, não murmurava. Apenas ali ficava. O dia completo sentada no segundo banco da praça, como se dele fizesse parte.
Olho da minha janela e quase posso vê-la. A pele reluzente, os cabelos ávidos por céu, sua impavidez perante a grama, os transeuntes, o mundo. Imagino-a rosa. E não adivinho seu nome…